quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

História do Cabelo

      

           Você Sabia que osÍndios e africanos tiveram forte influência em nossa paixão pelos cuidados com os fios.


Por Amanda Zacarkim
A atriz Sônia Braga e seus longos cabelos em 1971, na época em que atuava na peça Hair (Foto: reprodução)
Lisos, cacheados, crespos, coloridos, brancos… Por 6 anos, Leusa Araujo pesquisou tipos de fios e penteados e sua relação com diferentes culturas e momentos históricos .

Os fios soltos e à mostra ainda são um forte símbolo de liberdade para as mulheres”, diz – e investiga a importância que as brasileiras dão ao assunto. Segundo Leusa, esse é um traço forte de nossas origens indígena e africana. “Só em uma pequeno região da África (no Benin) existiam pelo menos 16 penteados para ‘dizer’ que a mulher estava noiva, menstruada, grávida do primeiro filho, por aí adiante!”

Confira um bate-papo com a pesquisadora..
Meus 5 Minutos – Por que os cabelos soltos estão ligados à ideia de liberdade sexual?
Leusa Araujo – Nas sociedades tradicionais, o cabelos soltos e longos sempre estiveram relacionados à capacidade de atração sexual e à fertilidade da mulher. Em contrapartida, os presos e amarrados se relacionavam à restrição da sexualidade. Na Idade Média, a mulher sofreu um doloroso processo de demonização e foi “convidada” a se cobrir em público. Depois disso, o penteado das casadas passou a ser o cabelo dividido ao meio, preso em coque, e coberto por véu, touca ou chapéu para sair às ruas.
O estilo curto e reto é conhecido como corte chanel até hoje no Brasil (Foto: reprodução)
 Quais as mudanças mais significativas dos fios e dos penteados femininos ao longo do processo de emancipação da mulher?
Leusa – O processo de libertação da aparência dos cabelos é recente. Em 1917, o corte [curto e reto] feito pelo cabeleireiro parisiense Antoine [a quem se atribui o famoso penteado de Coco Chanel] marca, depois de séculos, uma revolução de costumes, já que homens e mulheres quase sempre se distinguiram pelo comprimento das madeixas. O momento era a Primeira Guerra Mundial, quando boa parte das mulheres em toda a Europa ficou à mercê de seus próprios recursos para sobreviver. Elas ganharam as ruas e começaram a fumar e beber em público como se dissessem: “Olha, olha, agora que os homens não estão eu posso ir para a rua, fazer o que eles fazem!”. Além disso, a guerra provocou a escassez de produtos de higiene e do tempo dedicado aos penteados elaborados. Saem os coques altos e fofos sob chapéus mirabolantes e entra o estilo chanel, com cabelos curtos e pequenos chapéus canotier, originalmente usados pelos gondoleiros.
 
Falando de pelos e cabelos: qual a sua opinião sobre a quase exigência da depilação aqui no Brasil? O que isso reflete do comportamento das pessoas?
Leusa – Num passado recente, era comum chegar a uma casa e encontrar uma escarradeira. Era fino cuspir nela em vez de cuspir na parede – como fazia a maioria, segundo o historiador Norbert Elias. O que isso quer dizer? Costumes que eram vistos com naturalidade numa época podem causar horror mais adiante. Estamos num momento em que os pelos íntimos se confundem com traços de falta de beleza ou até de higiene. Ainda é cedo para avaliar se a tendência sobrevive.

 Quais são as particularidades do cabelo das brasileiras e da forma como nós o “ajeitamos”?
Leusa – A abundância de água explica, em grande parte, esse amor pelo cuidado com o corpo e os cabelos. Enquanto os salões de Paris só puderam “fazer o shampoo” antes do penteado no início do século 20, nós brasileiras já saíamos de casa com o tal do cabelo ao vento há muito tempo. A busca da beleza é um traço forte da nossa ancestralidade, índia e negra. A África é o continente mais rico no penteado feminino! Em uma pequena região existiam pelo menos 16 penteados diferentes para “dizer” que a mulher estava noiva, menstruada, grávida do primeiro filho, e por aí adiante. Os índios que habitavam o nosso território também dedicavam muito tempo do dia ao cuidado minucioso do corpo.

 Você mudou a forma como cuida do seu cabelo depois da pesquisa?
Leusa – A vida inteira usei mais ou menos o mesmo cabelo, sou conservadora. Mas posso dizer que diminuí a minha culpa (risos). Como uma mulher urbana que está no mundo do trabalho, me sentia um pouco “patricinha” no cabeleireiro. Sempre gostei do ritual de fazer a unha, tingir e escovar os cabelos. Depois da pesquisa para o livro, não me sinto mais culpada por isso e acho que esse é um tempo merecido da mulher, e que mostra que ela quer estar bem com as pessoas.
 
- Leusa Araujo trabalha com moda, beleza e comportamento desde 1982 e tornou-se pesquisadora da área para o mercado editorial a partir de 1994, quando fez pesquisa e edição de texto dos livros Chic, Chic Homem (Senac), Chic[érrimo] e Alô, Chics!, de Gloria Kalil, além de Maquiagem, de Duda Molinos (Senac). Atualmente, ela trabalha como pesquisadora para a novela Cheias de Charme, da TV Globo. O Livro do Cabelo é seu segundo título de não-ficção, depois de Tatuagem, Piercing e outras mensagens do corpo (2005, Cosac Naify).

Até

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 Cissa Jung